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Contos em 30 minutos
Os contos deste blogue foram escritos em 30 ou menos minutos e será publicado um conto mensalmente no dia 1.
Os 30 minutos somente incluem a escrita do completo arco da história, os subsequentes ajustes, leituras, edições, reedições, acertos em detalhes da história que necessitaram de alguma pesquisa, e no caso de alguns contos, a congruência, não foram contados temporalmente e foram feitos após os referidos 30 minutos. Todas as subsequentes alterações não alteraram o mais alto e importante arco da história; assim os contos não violam este exercício de escrita - escrever um pequeno conto numa assentada.
A criadora deste conceito foi a minha amada namorada, ela lançou-me o desafio de iniciar e terminar uma história em 30 minutos, com o intuito de combater a minha inércia de escrever. Por tal desafio e mais, muito mais, lhe estou agradecido.

Os pombos apanharam o autocarro para a guerra
Albert descansava encostado ao muro da trincheira. A metralhadora germânica cantava a sua canção fatal. Balas aterraram mesmo em frente de Albert levantando pequenas nuvens de pó.
James chamou por Albert. James estava a uns metros abaixo e usava um periscópio para ver a linha dos inimigos. A colina de Ypres estava adiante mas não era visível. Albert encostou os olhos ao periscópio e viu uma parede amarela. Mas não era uma parede, era uma nuvem, um nevoeiro denso e impenetrável. O vento estava contra eles e a densa massa gasosa movia-se na direção deles.
Os disparos da linha inimiga continuavam.
O amarelo nevoeiro, não mais que 10 metros de altura, estava a meros metros deles. Um cheiro feriu o nariz de Albert, um enjoativo cheiro a alho e rabanete. Os olhos de Albert começaram a chorar. (…)

A Acordadora
A noite já cobria o dia com o seu assustador véu negro. O vento assobiava alto. O Sr. Smith chegou a casa do trabalho, do seu último dia de trabalho da sua vida – reformara-se aos 74 anos, depois de mais de 50 anos numa mina de carvão.
Smith, coberto de carvão, quase invisível nas ruas escuras de Birmingham, marcava um enorme contraste com a bela casa que a sua esposa mantinha. Tudo limpo e arrumado, não haviam riquezas ali, mas havia comida na mesa, e teto sobre as suas cabeças. E como acrescentava sempre a sua esposa que era friorenta: “E uns toros na lareira pra nos aquecer os ossos!” Ruth dizia sempre isto sempre que se falava sobre a situação deles, e sorria sempre o mesmo sorriso, amarelo e sem um dos incisivos superiores. Mas verdadeiro!

Há que bater nas rodas
Um batedor de rodas de comboio por detrás dos montes comete um inocente erro que vai sair caro a muita gente.

Que horas são em Londres?
Frederick olhou para o seu relógio de bolso. Estava parado, marcava umas eternas 9 horas. Olhou para cima e o relógio da estação de Paddington caminhava visivelmente para as 9 horas.
Quando o ponteiro dos minutos se elevou completamente numa perfeita verticalidade, as 9 horas de Londres tinham chegado. Frederick pressionou o botão do seu relógio e este iniciou o seu mover, quase imperceptível, mas presente.

O Pintor Ambulante
João chegou à estação de autocarros com tudo que possuía. Uma mochila com a pouca roupa que podia apelidar de sua, um balde e uma sacola ao ombro com as suas tintas e pincéis dentro. O valor dos utensílios de pintura apresentavam um enorme valor emocional para João pois fora a sua falecida mãe que lhe dera tais instrumentos dez anos atrás. Mas nestes meses de deambular pelo interior português, estes utensílios traziam a João o pão que come, a sopa que beberica da colher, a maçã que numa noite de fome devora. Eram mais do que memorabília.

O Itinerante Daguerreotipista
Na distância vinha um vulto que subia o caminho na minha direção. A luz direta do Sol não me permitia discernir se era conhecido ou estranho. Mais perto percebi que se tratava de um estranho desta pequena terra alentejana. O calor estava bravo e seco, tudo em nosso redor era amarelado e poeirento. As convectivas correntes de ar quente subiam e distorciam a imagem deste, ainda por conhecer, desconhecido.
(…)