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Contos em 30 minutos
Os contos deste blogue foram escritos em 30 ou menos minutos e será publicado um conto mensalmente no dia 1.
Os 30 minutos somente incluem a escrita do completo arco da história, os subsequentes ajustes, leituras, edições, reedições, acertos em detalhes da história que necessitaram de alguma pesquisa, e no caso de alguns contos, a congruência, não foram contados temporalmente e foram feitos após os referidos 30 minutos. Todas as subsequentes alterações não alteraram o mais alto e importante arco da história; assim os contos não violam este exercício de escrita - escrever um pequeno conto numa assentada.
A criadora deste conceito foi a minha amada namorada, ela lançou-me o desafio de iniciar e terminar uma história em 30 minutos, com o intuito de combater a minha inércia de escrever. Por tal desafio e mais, muito mais, lhe estou agradecido.
Uma aparatosa saída de emergência
"Fogo!"
Alguém no corredor do 8º andar gritava a fatídica palavra. Uma palavra que inspira medo em todas as línguas, principalmente quando é gritada a meio da noite e se tem um filho de 2 anos para cuidar.
Este foi o acordar de Lucy, numa noite nova-iorquina nos meados do século XIX. Lucy correu para a cama do filho e arrancou a criança do sono e da cama. Pegou nele e correu porta fora.
(…)

Os pombos apanharam o autocarro para a guerra
Albert descansava encostado ao muro da trincheira. A metralhadora germânica cantava a sua canção fatal. Balas aterraram mesmo em frente de Albert levantando pequenas nuvens de pó.
James chamou por Albert. James estava a uns metros abaixo e usava um periscópio para ver a linha dos inimigos. A colina de Ypres estava adiante mas não era visível. Albert encostou os olhos ao periscópio e viu uma parede amarela. Mas não era uma parede, era uma nuvem, um nevoeiro denso e impenetrável. O vento estava contra eles e a densa massa gasosa movia-se na direção deles.
Os disparos da linha inimiga continuavam.
O amarelo nevoeiro, não mais que 10 metros de altura, estava a meros metros deles. Um cheiro feriu o nariz de Albert, um enjoativo cheiro a alho e rabanete. Os olhos de Albert começaram a chorar. (…)

O Doutor e o Porto
Um esguio homem gesticulava enquanto contava uma ridícula história sobre um estranho planeta num tempo onde todos os relógios foram destruídos.
“Quem é aquele interessante senhor?” Perguntou uma mulher. Rupert não se tinha apercebido que alguém se tinha aproximado. A sala de estar era maior que o seu apartamento. Cada vestimenta ali exposta e cuidadosamente medida para se acomodar ao utilizador valia mais que toda a sua roupa junta.
“É o Doutor.” Respondeu Rupert, soltando um leve sorriso.
“Doutor Quem [Doctor Who]?”

Álibis e Limitada
Um homem de seus quarenta anos descia umas escadas de madeira para uma cave. Acendeu a luz e esta revelou uma enorme cave. Montes de velharias acumulavam e ocupavam o espaço. Uma bicicleta coberta de uma camada de pó de pelo menos 10 anos estava deitada no chão perto de uma porta. O homem dirigiu-se à porta e entrou.
O seu escritório estabelecia uma enorme diferença face à cave por pintar: iluminada, estava tudo arrumado, limpo e os objetos eram da presente década. Mais ninguém estava na divisão. A principal faceta da sala eram as enormes estantes repletas de dossiers, a outra era uma única secretária que se encontrava no centro da divisão. Nesta repousava um telefone de disco, um bloco de notas aberto e uma caneta com a tampa por pôr. A tampa nem vê-la.

O Mapa de Imola
Cesare Borgia chegou com a sua corte a Imola, a fortificada vila do interior italiano. Na sua companhia vinha o colorido Leonardo, nascido em Vinci. Borgia mandou um dos seus assistentes buscar Leonardo.
Meia hora passou e o engenheiro, pintor, escultor, naturalista, bem… o génio, chegou junto do implacável Borgia.
“Leonardo! Quero que faças um mapa de Imola. Quero conhecer as defesas do forte onde estamos e quero um mapa detalhado da vila.” Ordenou Borgia.

A Acordadora
A noite já cobria o dia com o seu assustador véu negro. O vento assobiava alto. O Sr. Smith chegou a casa do trabalho, do seu último dia de trabalho da sua vida – reformara-se aos 74 anos, depois de mais de 50 anos numa mina de carvão.
Smith, coberto de carvão, quase invisível nas ruas escuras de Birmingham, marcava um enorme contraste com a bela casa que a sua esposa mantinha. Tudo limpo e arrumado, não haviam riquezas ali, mas havia comida na mesa, e teto sobre as suas cabeças. E como acrescentava sempre a sua esposa que era friorenta: “E uns toros na lareira pra nos aquecer os ossos!” Ruth dizia sempre isto sempre que se falava sobre a situação deles, e sorria sempre o mesmo sorriso, amarelo e sem um dos incisivos superiores. Mas verdadeiro!

“Mas eu não uso tangas.”
“Boa tarde Sô Dona Josefina. Que se passa com o Kiko?”
“O meu Kikinho tem estado a vomitar bastante… Hoje de manhã cheguei a casa… sabe, estive uns dias fora com umas amigas. Fomos passar uns dias ao Algarve.”
“Muito bem… E o Kiko tem vomitado desde quando?” Perguntou o Veterinário.
“Não sei Doutor, estive fora como lhe estava a dizer. O meu marido não notou nada até esta manhã.” Josefina segurava em mãos um embrulho feito de um cobertor e um pinscher preto e castanho. O pequeno e lingrinhas cão mal abria a boca e tinha saliva em seus lábios.

Há que bater nas rodas
Um batedor de rodas de comboio por detrás dos montes comete um inocente erro que vai sair caro a muita gente.

Booglândia
“É oficial, pela primeira vez na história da humanidade, uma nação soberana é adquirida por uma empresa privada. O nosso país, que até hoje se chamava Portugal, vai a partir do dia 1 de janeiro chamar-se Booglândia" Anunciou o locutor das notícias.

Que horas são em Londres?
Frederick olhou para o seu relógio de bolso. Estava parado, marcava umas eternas 9 horas. Olhou para cima e o relógio da estação de Paddington caminhava visivelmente para as 9 horas.
Quando o ponteiro dos minutos se elevou completamente numa perfeita verticalidade, as 9 horas de Londres tinham chegado. Frederick pressionou o botão do seu relógio e este iniciou o seu mover, quase imperceptível, mas presente.

O Pintor Ambulante
João chegou à estação de autocarros com tudo que possuía. Uma mochila com a pouca roupa que podia apelidar de sua, um balde e uma sacola ao ombro com as suas tintas e pincéis dentro. O valor dos utensílios de pintura apresentavam um enorme valor emocional para João pois fora a sua falecida mãe que lhe dera tais instrumentos dez anos atrás. Mas nestes meses de deambular pelo interior português, estes utensílios traziam a João o pão que come, a sopa que beberica da colher, a maçã que numa noite de fome devora. Eram mais do que memorabília.

O Golpe ao Corredor Vasari
A noite já ia longa em Florença. Os únicos habitantes das ruas eram a leve brisa de Verão e o Antoni.
Antoni virou a esquina e viu a Igreja da Santa Felicidade. A fachada estava tapada pelo Corredor Vasari, suspenso por colunas arqueadas, acima da rua, acima da populaça. Antoni pensou na sua família, na pobreza dos italianos ao longo dos séculos enquanto os Medici reinavam na sua incalculável riqueza. Reis sem coroas que construíram um corredor fechado que atravessa a cidade, só para não terem que se misturar com os pobres. Uma clara linha diferenciadora entre os ricos e poderosos, e os pobres.

O Itinerante Daguerreotipista
Na distância vinha um vulto que subia o caminho na minha direção. A luz direta do Sol não me permitia discernir se era conhecido ou estranho. Mais perto percebi que se tratava de um estranho desta pequena terra alentejana. O calor estava bravo e seco, tudo em nosso redor era amarelado e poeirento. As convectivas correntes de ar quente subiam e distorciam a imagem deste, ainda por conhecer, desconhecido.
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O Comboio Fúnebre
Já passava da hora, o comboio estava atrasado… Junto à plataforma, uma família aguardava impacientemente. A criança constantemente a fazer perguntas à mãe, que embora estivesse a esforçar-se para não perder a paciência, já gritara um cibo com a pobre criança.
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O Pastor: Uma Conversa e um Livro (10)
“Podia dizer-me onde fica a biblioteca?” A senhora não entendeu que o Pastor se dirigia a ela e continuou a caminhar, este avançou um pouco mais rápido e deu um pequeno toque no ombro da senhora, repetindo a mesma pergunta. Ela virou-se algo surpresa: “Desculpe! Não entendi que falava comigo… Ah! Archibald! És tu! Como andas?”
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Hoje não me calo
Maria lavava a loiça do jantar que comeu sozinha. O esposo, nem às 23 horas estava por casa, mais uma vez ficara a tratar de «negócios» até tarde. Isso é o que ele dizia, o cona-da-mãe do caralho!
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O Pastor: O Mercado (9)
O Pastor estava no mercado de Inverness, mercado somente de produtores, um local para comprar diretamente ao agricultor. É aqui que ele fazia o seu dinheiro, a vender lã e leite de ovelha.
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Era para aviar uma prescrição de ópio, se faz favor.
Andrew Davis caminhava no seu típico caminhar, enorme quantidade de peso na perna direita, e uma baixíssima quantidade de peso na esquerda. A dor era intensa; mesmo depois de duas cirurgias, os médicos não conseguiram remover todos os estilhaços dum projétil de canhão de sua perna.
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O Pastor: Dia da Tosquia (8)
O Pastor estava no palheiro, envolto em lã, montes de lã, a primavera já morava em todo o seu esplendor na Escócia. Archibald encontrava-se a cortar a lã de todas as suas ovelhas; de um lado as rapadas e do outro as por rapar. Hoje estava toda a gente agitada, as rapadas porque foram manuseadas e as por rapar porque estavam a ver o que as esperava.
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A Pedra Angular
O monte de escombros tinha pelo menos a altura de um andar e meio, talvez dois (dependendo do pé direito). Um grupo de jovens vasculhava entre os tijolos, as vigas partidas, os estilhaços de vidro – os componentes da destruição de um edifício.
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